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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vergonha do Sete - O Globo - 09/04/2011

Cristovam Buarque


No século XIX, Victor Hugo se negou a apertar a mão de D. Pedro II, porque era o Imperador de um país que convivia naturalmente com a escravidão. Hoje, Victor Hugo não apertaria a mão de um brasileiro para parabenizá-lo pela conquista da 7ª posição entre as potências econômicas mundiais, convivendo com total naturalidade com a tragédia social ao redor.

Estamos à frente de todos os países do mundo, menos seis deles, no valor da nossa produção, mas não nos preocupamos por estarmos, segundo a Unesco, em 88º lugar em educação.

Somos o sétimo no valor do PIB, mas ignoramos que, segundo o FMI, somos o 55º país no valor de renda per capita, fazendo com que sejamos uma potência habitada por pobres. Mais grave: não vemos que, segundo o Banco Mundial, somos o 8º pior país do mundo em termos de concentração de renda, melhor apenas do que a Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia.

Somos a sétima economia do mundo, mas de acordo com a Transparência Internacional estamos em 69º lugar na ordem dos países com ética na política por causa da corrupção. A nota ideal é 10, o Brasil tem nota 3,7.

Somos a sétima potência em produção, mas, quando olhamos o perfil da produção, constatamos que há décadas exportamos quase o mesmo tipo de bens e continuamos importando os produtos modernos da ciência e da tecnologia. Somos um dos maiores produtores de automóveis e temos uma das maiores populações de flanelinhas fora da escola.

Um relatório da Unesco divulgado em março mostra que a maioria dos adultos analfabetos vive em apenas dez países. O Brasil é um deles, com 14 milhões; com o agravante de que, no Brasil, eles nem ao menos reconhecem a própria bandeira. De 1889 até hoje, chegamos à sétima posição mundial na economia, mas temos quase três vezes mais brasileiros adultos iletrados, do que tínhamos naquele ano; além de 30 a 40 milhões de analfabetos funcionais.

Somos a sétima economia e não temos um único prêmio Nobel.

Segundo um estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que pesquisou 46 países, o Brasil fica em último lugar em percentagem de jovens terminando o ensino médio. Estamos ainda piores quando levamos em conta a qualificação necessária para enfrentar os desafios do século XXI. Segundo a OIT, a remuneração de nossos professores está atrás de países como México, Portugal, Itália, Polônia, Lituânia, Látvia, Filipinas; a formação e a dedicação deles provavelmente em posição ainda mais desfavorável, por causa da péssima qualidade das escolas onde são obrigados a lecionar. Somos a 7ª potência econômica, mas a permanência de nossas crianças na escola, em horas por dia, dias por ano e anos por vida está entre as piores de todo o mundo. Além de que temos, certamente, a maior desigualdade na formação de cada pessoa, conforme a renda de seus pais. Os brasileiros dos 10% mais ricos recebem investimento educacional cerca de 20 vezes maior do que os 10% mais pobres.

Somos a sétima potência, mas temos doenças como a dengue, a malária, a doença de chagas e leishmaniose. Temos 22% de nossa população sem água encanada e mais da metade sem serviço de saneamento. Segundo o IBGE, 43% dos domicílios brasileiros, 25 milhões, não são considerados adequados para moradia; não têm simultaneamente abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo.

Esta dicotomia entre uma das economias mais ricas do mundo e um mundo social entre os mais pobres, só se explica porque nosso projeto de nação é sem lógica, sem previsão e sem ética. Sem lógica, porque não percebemos que "país rico é país sem pobreza", como diz a presidenta Dilma. Sem previsão, por não percebermos a grande, mas atrasada economia que temos, incapaz de seguir em frente na concorrência com a economia do conhecimento que está implantada em países com menor riqueza e mais futuro. E sem ética, porque comemoramos a posição na economia esquecendo as vergonhas que temos no social.


Cristovam Buarque é Professor da UnB e Senador pelo PDT-DF

terça-feira, 5 de julho de 2011

István Mészaros - O Capital além do capitalismo

Entrevista de István Mészaros no OPOVO online

Polêmico e radical pensador marxista explica por que nenhuma das experiências socialistas até hoje podem ser consideradas fieis ao pensamento de Karl Marx.

A perspectiva política adquire ares proféticos, quase messiânicos. O socialismo é o destino inescapável da humanidade. É o futuro inexorável. Será ele ou a barbárie, como disse Rosa Luxemburgo. Isso na melhor das hipóteses, acredita István Mészaros. Pois a crise do Capital é tão grave que periga não deixar nem a barbárie.

Um dos mais radicais pensadores do marxismo atual, Mészaros virou trabalhador de fábrica aos 12 anos de idade. Metalúrgico, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - lembrou ele durante a entrevista. Mais tarde, tornou-se intelectual, com estudos voltados para a exploração da classe trabalhadora.
Foi menino-operário nos anos em que a Segunda Guerra Mundial varreu a Europa. Já formulador marxista, criticou o socialismo na Hungria, sua terra natal. A ponto de fugir do País em 1956, quando se deu a invasão soviética. Mesmo no exílio, continuou a se corresponder com Georg Lukács, de quem foi discípulo.
Nas três últimas semanas, Mészaros percorreu as cidades brasileiras de São Paulo, Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro. Na passagem pela capital cearense, ele concedeu a entrevista ao O POVO que você confere a seguir.
O POVO – De que forma sua experiência como operário de fábrica, ainda muito jovem, influenciou seu pensamento e pensamento marxista?
István Mészaros – Eu tinha 12 anos e meio. Muito jovem ainda comecei a trabalhar numa fábrica, como metalúrgico. Coincidentemente, a mesma atuação do ex-presidente de vocês, Lula. Obviamente isso influenciou bastante. Porque, primeiro, a vida de um trabalhador era muito difícil naquele ano. E, também, era no meio da guerra (Segunda Guerra Mundial, 1939-45). Tinha a dificuldade de ser trabalhador de fábrica, operário, e estar no meio de uma guerra mundial.
OP – Como se deu o contato inicial com o pensamento marxista?
Mészaros – Nos idos de 1946, eu descobri, em uma livraria, um livro de Georg Lukács (1885-1971). Ele era um filósofo húngaro que escreveu um livro sobre os problemas da literatura húngara. Como eu estava também me iniciando nos estudos da literatura húngara, tinha alguma familiaridade com a coisa. Vi o livro, passei a ler e gostei. Uma coisa foi levando à outra. O Lukács era professor da universidade, da área de estética e literatura. E fui me aprofundando cada vez mais.
OP – Como foi a convivência posterior com o Lukács?
Mészaros – O Lukács foi meu padrinho de casamento. Eu tive a honra de trabalhar com ele durante sete anos e meio, quase oito anos, como assessor dele na Universidade (de Budapeste). Em 1956, fui nomeado professor assistente do Lukács. Eu ministrei o curso de Estética, que ele normalmente ensinava na universidade, substituindo-o no cargo. Logo depois disso, tudo explodiu. Você lembra do que aconteceu em 1956 na Hungria. Com a revolução, Lukács foi preso. Depois ficou lá, mantido sob ameaça de deportação. Eu tive de sair da Hungria. Fui para a Itália, depois para o Reino Unido, Inglaterra e Escócia especialmente. Ensinei em algumas universidades. Mas sempre mantive o contato com o Lukács. Durante 15 anos, nós nos correspondíamos normalmente, mesmo depois que ele foi liberado e ficou em prisão domiciliar. De 1956 a 1971 nós nos correspondemos. Em 1971, Lukács veio a falecer. Quando eu morrer, as cartas poderão ser publicadas. Até lá, não. Lukács foi muito perseguido, principalmente por ter relações de amizade muito próximas, de correspondência, com pessoas da parte ocidental. Como eu, que morava em países da Europa Ocidental. E lá, na Hungria, o dogmatismo era muito grande. Então, ele sofreu muita pressão, foi muito perseguido por esse tipo de amizade com pessoas do Ocidente.
OP – Como um garoto, que começou a trabalhar tão cedo, no ambiente fabril, conseguiu se educar a ponto de enveredar pelo ramo intelectual?
Mészaros – O intelectual é um trabalhador. Eu era um trabalhador de fábrica e passei a ser um trabalhador intelectual. Nós somos todos trabalhadores. A minha passagem para a academia foi natural. Na Hungria, existe o equivalente ao que há na França, a Escola Superior Normal. Com base no meu rendimento escolar, fui aceito e comecei a estudar, voltado para a área de estética. Imediatamente depois, nos idos de 1950, eu escrevi ensaio, publicado em um dos principais jornais literários na Hungria, sobre o poeta húngaro Attila József, um gigante da literatura. Esse ensaio me rendeu um prêmio, com o nome desse poeta. O que me deixou muito feliz foi o fato de que esse poeta havia sido banido de apresentações do Teatro Nacional da Hungria. Depois desse ensaio, como desdobramento, a obra voltou a ser realizada e voltou a ser apresentada no Teatro Nacional. E deu ainda mais ânimo para continuar na vida acadêmica.
OP – Como foi sua experiência, como pensador marxista, com o socialismo húngaro, antes e depois da invasão soviética de 1956.
Mészaros – Sempre fui muito crítico ao processo, da forma como se deu. Acreditava que a Hungria não era mais um país autônomo. Tinha perdido sua autonomia, porque dependia exclusivamente das relações com Moscou. Tudo que era trabalhado nessa relação de dependência com Moscou acabava refletindo negativamente para o País. Então, bati de frente. Escrevi artigo extremamente crítico, publicado em 1956, mas escrito muito antes disso. Inclusive seis meses da crítica que o (Nikita) Kruschev (sucessor de Josef Stalin como secretário-geral do Partido Comunista Soviético) fez ao Stalin (em fevereiro de 1956). Fui sempre crítico veemente da forma como as coisas aconteceram na Hungria.
OP – Quando houve a invasão soviética, como foi tomada a decisão de deixar o País?
Mészaros – Deixei o País porque não acreditava que aquilo era, de fato, socialismo. Sempre deixei isso muito claro em todos os meus escritos. Nunca titubeei a esse respeito. Sempre tive posição muito crítica ao modelo soviético. Voltando ao pensamento marxista, aquilo não tinha quase nada a ver com socialismo. Então, minha opção foi por deixar o País.
OP – Das experiências do chamado socialismo real que já tivemos, o que mais se aproxima daquilo que Marx concebeu?
Mészaros – É uma pergunta muito difícil de ser respondida. Os diferentes países enfrentaram diferentes limites. Limitações claras e específicas das suas próprias realidades. Você vê alguma sombrazinha, aqui e acolá, de coisas positivas que foram feitas em experiências dos países do chamado bloco socialista, até agora. Mas nenhuma dessas experiências pode ser considerada como, de fato, experiência de socialismo, no sentido marxista do termo. O que é o sentido marxista do termo? Uma concepção radical da emancipação da humanidade. No sentido de que isso vai ser feito com a igualdade substancial. A igualdade que temos hoje passa longe de ser essa igualdade substantiva. É uma igualdade formal. Você pode votar. Você pode, “democraticamente”, eleger seus representantes. A partir disso, essas pessoas são colocadas nas suas assembleias, nos seus parlamentos, e nós não temos mais absolutamente nenhum controle sobre as suas ações. De quatro em quatro anos, ou de cinco em cinco anos, nós vamos lá e colocamos um pedaço de papel na urna e estamos exercendo nossa igualdade formal. Entretanto, isso não tem nada a ver com socialismo, na concepção marxista original. O socialismo é algo que acontecerá no futuro. Não há alternativa a isso. É a ideia de que as pessoas irão, radicalmente, humanamente se emancipar nessa igualdade substancial. Um exemplo é o que diz o escritor norte-americano Gore Vidal, que entende o sistema americano como sendo o modelo democrático de um partido só dividido em duas frentes de direita. Existe tendência muito grande ao maniqueismo na compreensão histórica. Preto ou branco, um lado ou outro lado. E a compreensão histórica não é isso. Você tem sombras em todas as partes, sombras de problemas, sombras que não são pretas nem brancas. Sombras que são cinzas e sombras que são múltiplas. O processo histórico vai se materializar através da interação de todas essas sombras.
OP – Mas, depois de tantas experiências que se proclamaram marxistas ao longo da história, mas não conseguiram alcançar a plenitude socialista, ainda assim o senhor tem a convicção de que é possível e, mais que isso, inescapável que se alcance esse estágio de socialismo?
Mészaros – Com certeza. Acredito que o socialismo é, sim, o nosso futuro. Porque o sistema que nós temos hoje, o sistema capitalista está, de fato, destruindo a humanidade, destruindo a natureza, destruindo os recursos naturais. Porque se baseia no crescimento a todo custo e a todo preço. A lógica do sistema é crescer. Crescer, crescer, crescer. Produzir, produzir, produzir e vender. A lógica do sistema capitalista é essa. Independentemente do que você vá fazer com seu produto, o importante é vender e fazer com que a mercadoria se realize na forma do Capital. Feito isso, não tem diferença qual vai ser o destino que vai ser dado a esse produto. Você pode simplesmente comprar o produto e jogar no mar. O destino não interessa. Porque a lógica do sistema capitalista é essa. E essa lógica é que tem causado toda essa destruição que nós testemunhamos com muita clareza no mundo todo. Por isso nós tivemos duas guerras mundiais. E só não tivemos uma Terceira Guerra Mundial sob o capitalismo porque iria destruir toda a vida no planeta. Há uma frase de Rosa Luxemburgo que diz: “Socialismo ou barbárie”. Se eu pudesse fazer uma modificação nessa frase, a única coisa que eu mudaria seria acrescentar: “Socialismo ou barbárie, se nós tivermos sorte”. Porque o capitalismo vai destruir tudo e não sobra nem a barbárie. Em 1992, tivemos no Rio de Janeiro a Eco-92. O (George) Bush, pai (então presidente dos Estados Unidos) esteve presente e foram feitas promessas, e promessas e promessas. E absolutamente nada do que foi acordado naquela conferência ecológica mundial foi colocado em prática. Agora, vamos ter a Rio+20. Se a gente não tomar cuidado, o que vai acontecer é basicamente a mesma coisa. Promessas, promessas e promessas. Para juntar àquelas outras promessas que já haviam sido feitas há 20 anos. E nada vai acontecer para inverter essa lógica. E nós não temos mais tempo para ficar, de 20 em 20 anos, renovando as nossas promessas.
OP – Na sua obra, o senhor descreve uma crise estrutural, que não está sendo revertida pelos mecanismos do capitalismo. Mas, ao longo das várias crises pelas quais o sistema passou desde o século XX, ele não mostrou capacidade de adaptação e de resistência muito maior que se supunha no marxismo clássico?
Mészaros – Eu não estou falando sobre a crise do capitalismo. Estou falando sobre a crise estrutural do sistema do Capital. O capitalismo tem 400, 500 anos. O Capital existe há mais de dois mil anos. O capitalismo sobreviveu a todas essas crises superando os obstáculos que apareciam de forma cíclica. O capitalismo, de fato, é essa produção de commodities generalizada. Mas nós temos o capitalismo porque o Capital se impôs, com sua força, seu poder econômico. E foi se formando, então, o capitalismo. A crise que eu estou descrevendo não é a crise do sistema capitalista. É a crise do Capital, que se impôs de maneira a formar o que hoje se entende por capitalismo. Essas crises do capitalismo, sejam cíclicas ou conjunturais, repetem-se a cada sete ou dez anos. E o capitalismo consegue superá-las. Mas elas não são resolvidas em definitivo. E se está chegando ao ponto no qual não se pode prosseguir destruindo. Nos primeiros anos do capitalismo, pela sua força e seu poder, o capitalismo se expandia num ritmo alucinado. Há um ditado em muitas línguas que diz que o céu é o limite. Mas, depois de tantos séculos de capitalismo e de destruição, vê-se com muita clareza que o céu não é o limite. A Terra é o limite. A Mãe-Terra. E isso vai não só contra os princípios básicos do capitalismo, mas também do Capital. Essa ideia do capitalismo, de competição, de criar o inimigo. Se você não puder bater o seu inimigo pelas pressões comerciais, pela competição comercial, você acabará tendo que combatê-lo na extensão da política, que é a guerra. Perguntado sobre o que era a guerra, Carl von Clausewitz (general, estrategista e teórico militar da antiga Prússia, atual Alemanha) dizia: “A guerra é a continuação da diplomacia e da política através de outros meios”. Por isso tivemos duas guerras mundiais sob a égide do capitalismo. Mas não podemos mais ter a continuação da política por outros meios.

A entrevista foi mediada pelo tradutor Nícolas Ayres.

István Mészaros - O Capital além do capitalismo

terça-feira, 21 de junho de 2011

Música inédita do RADIOHEAD...escuta aí que os caras são geniais. Aumenta o som!!

Puta que pariu, esses caras são foda...

''A ecologia é o ópio do povo''. Entrevistas com Slavoj Zizek

Esta entrevista foi realizada pelo professor Ricardo Sanín, do Departamento de Filosofia e História do Direito da Universidade Javeriana, da Colômbia, sendo cedida a MAGIS por intermédio do professor dos PPGs em Filosofia e Direito da Unisinos, Alfredo Culleton.Sanin e Culleton (também responsável pela tradução e introdução da entrevista) trabalham em cooperação em projeto de desenvolvimento de uma Teoria Crítica dos Direitos Humanos, junto com o professor Costas Douzinas, da Universidade de Londres.

A entrevista foi publicada por Magis, Revista da Unisinos, no. 05, dez 2009-jan 2010.

Eis a entrevista.



O senhor tem insistido que tanto o multiculturalismo quanto os movimentos ecológicos não abordam os problemas políticos verdadeiramente agudos e relevantes para o mundo. Por quê?

O multiculturalismo passa por cima dos problemas políticos verdadeiramente relevantes e agudos quando os reduz a meros problemas culturais. Quando lidamos com um problema real, tanto sua designação ideológica como sua percepção como tal introduz uma mistificação invisível. Digamos que a tolerância designa um problema real. É claro, sempre me perguntam: “Como você pode concordar com a intolerância com os estrangeiros, estar de acordo com o antifeminismo ou ao lado da homofobia?”. Aí reside a armadilha. Evidentemente, não estou de acordo. Ao que me oponho é à nossa percepção automática do racismo como mero problema de tolerância. Por que tantos problemas atualmente são percebidos como problemas de intolerância, em vez de serem entendidos como problemas de iniquidade, exploração e injustiça? Por que o remédio tem de ser a tolerância em vez de a emancipação, a luta política, ou ainda a luta política armada? A resposta imediata está na operação básica do multiculturalismo liberal: “a culturização da política”. As diferenças políticas, diferenças condicionadas pela iniquidade política ou a exploração econômica, se naturalizam como simples diferenças “culturais”. A causa desta culturização é o retrocesso, o fracasso das soluções políticas diretas, tais como o estado social. A tolerância é seu ersatz ou sucedâneo pós-político. A ideologia é, neste preciso sentido, uma noção que, enquanto designa um problema real, dilui uma fronteira de separação crucial.


E quanto à ecologia?

É precisamente no terreno da ecologia que podemos delinear a demarcação entre a política da emancipação e a política do medo na sua forma mais pura. De longe, a versão predominante da ecologia é a da ecologia do medo – medo da catástrofe, humana ou natural, que pode perturbar profundamente ou mesmo destruir a civilização humana. Essa ecologia do medo tem todas as oportunidades de se converter na forma ideológica predominante do capitalismo global, um novo ópio das massas que sucede o da religião. Assume a função fundamental da religião, aquela de impor uma autoridade inquestionável que estabelece todo limite. Apesar de os ecologistas exigirem permanentemente que mudemos radicalmente nossa forma de vida, é precisamente isso que subjaz a essa exigência no seu oposto, isto é, uma profunda desconfiança em relação à mudança, em relação ao desenvolvimento, em relação ao progresso: cada transformação radical pode conter a consequência inestimada de detonar uma catástrofe. É exatamente essa desconfiança que converte a ecologia em um candidato ideal para tomar o lugar de uma ideologia hegemônica, pois faz eco da desconfiança em relação aos grandes atos coletivos.


Afinal, de qual natureza estamos falando?

A “natureza” como condição de domínio, de reprodução balanceada, de implantação orgânica dentro da qual intervém a humanidade com a sua desmedida, destruindo brutalmente sua moção circular, não é outra coisa que a fantasia do ser humano; a natureza já é de fato uma “segunda natureza”, seu equilíbrio é sempre secundário, trata-se de uma tentativa de negociar um “hábito” que restauraria alguma ordem depois das intervenções catastróficas. A lição que devemos colher é a de que, se não podemos estar seguros de qual será o resultado final das intervenções humanas na biosfera, uma coisa é certa: se a humanidade detivesse abruptamente sua imensa atividade industrial e deixasse que a natureza tomasse seu curso equilibrado, o resultado seria uma ruptura total, uma catástrofe inimaginável. A “natureza” na Terra está tão adaptada às intervenções humanas, a “contaminação” humana está a tal ponto incluída no frágil e instável equilíbrio da reprodução “natural”, que a interrupção intempestiva da ação humana causaria um desequilíbrio catastrófico. É isso precisamente que demonstra que a humanidade não tem como retroceder: não só não há um “grande Outro” (uma ordem simbólica autocontida que seja a última garantia do significado), assim como também não existe uma natureza que contenha uma ordem equilibrada ou de autoprodução e cujo equilíbrio tenha sido perturbado e descarrilado pela intervenção humana desbalanceada. Não só o grande Outro tem sido “gradeado”, a natureza também.


Existe o mito fundamental segundo o qual o liberalismo é o lar da democracia. É a democracia uma produção do liberalismo?

Não, todas as características que hoje identificamos com a democracia liberal e com a liberdade (sindicatos, sufrágio universal, educação universal e gratuita, liberdade de imprensa etc.) foram obtidas pelas classes mais baixas em uma longa e difícil luta no transcurso do século XIX. Tais lutas estavam longe de ser uma consequencia “natural” das relações capitalistas. Lembra a lista de demandas que conclui o Manifesto Comunista: a maioria delas – à exceção da abolição da propriedade privada dos meios de produção, precisamente como resultado das lutas populares – hoje é amplamente aceita nas democracias “burguesas”. Outro aspecto que se ignora constantemente: hoje, a igualdade entre brancos e negros se celebra como parte do “sonho americano”, se percebe como um axioma ético-político. Sem dúvida, nos anos 1920 e 1930 do século passado, os comunistas dos Estados Unidos foram a única força política que argumentou a favor da igualdade absoluta entre as etnias. Aqueles que defendem a existência de um vínculo natural entre o liberalismo e a democracia estão equivocados.


Pode a política ser sublime em uma era pós-ideológica?

A tendência geral é para o ridículo. A figura do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, é aqui fundamental, visto que hoje a Itália é efetivamente um tipo de laboratório experimental do nosso futuro. Se o cenário político é dividido entre um tecnocratismo permissivo-liberal e um fundamentalismo populista, Berlusconi tem o grande mérito de ser ambos ao mesmo tempo. É sem dúvida esta combinação que faz dele imbatível, pelo menos em um futuro próximo: a histórica “esquerda” italiana agora resignadamente o aceita como destino. Essa aceitação silenciosa de Berlusconi como destino é talvez o aspecto mais triste de seu reinado. Seus atos são cada vez mais inescrupulosos: ele não só ignora ou politicamente neutraliza juridicamente as investigações sobre suas atividades criminosas para impulsionar seus interesses comerciais privados, como também busca minar sistematicamente a base da dignidade do chefe de Estado. A dignidade clássica da política é baseada na sua elevação acima do jogo de interesses específicos na sociedade civil: a política é "alienada" da sociedade civil, apresenta-se como a esfera ideal do cidadão, em contraste com o conflito de interesses que caracteriza a burguesia como egotista. Berlusconi efetivamente acaba com essa alienação: hoje na Itália, a base burguesa impiedosa e abertamente explora o poder estatal como um meio para a defesa dos seus interesses econômicos. E lava a roupa suja de seus conflitos maritais privados à maneira de um reality show vulgar, diante de milhões de espectadores sentados nos seus sofás. A aposta de Berlusconi nas suas indecentes vulgaridades está, naturalmente, em que as pessoas vão se identificar com ele, na medida em que ele aprova a mítica imagem ampliada da mídia italiana: “Eu sou um de vocês, um pouco corrupto, com problemas com a lei, tenho problemas com a minha mulher, porque outras mulheres me atraem...” Mesmo sua grandiosa promulgação como um grande e nobre político, il cavalliere, é mais como uma ópera ridícula do pobre homem com sonho de grandeza. E, no entanto, essa aparência de "um homem normal como todos nós” não deve nos iludir: por baixo da máscara desajeitada há um poder estatal que funciona com eficiência impiedosa.
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Slavoj Zizek é um dos principais pensadores europeus atuais. E também extremamente controverso. O filósofo e sociólogo esloveno escreve sobre temas como Lenine, ciberespaço, pós-modernismo, pós-Marxismo ou Alfred Hitchcock. E diz que "detesta pessoas". Abaixo, uma entrevista com ele, concedida à Euronews.

Euronews: O senhor é convidado do Festival de Cinema de Sarajevo… qual é o papel dos filmes e do cinema na sociedade de hoje?

Slavoj Zizek: Primeiro, eu continuo a ser um marxista à moda antiga. Portanto, eu acho que o cinema é hoje um campo de batalha ideológica, alguma batalha decorre aí e até podemos ver isso claramente no que respeita à horrível Guerra dos Balcãs. Temos alguns filmes acerca disto que são autênticos, mas, infelizmente, os maiores sucessos não o são. Esse é o caso do “Underground” do Emir Kusturica. Eu acho que esse filme é quase uma trágica – eu não diria que é uma falsificação equívoca – no sentido em que: “Que imagem é que esse filme te dá da ex-Jugoslávia?” A de uma parte do mundo maluca, onde as pessoas fornicam, bebem e lutam todo o tempo. Ele exibe um certo mito que o Oeste gosta de ver aqui nos Balcãs: este mítico outro, que permanece durante um longo período.

Euronews: Como explica este fenómeno?

Slavoj Zizek: Pode dizer-se ironicamente que os Balcãs estão estruturados como o inconsciente da Europa. A Europa põe e projecta todos os seus segredos sujos, obscenidades e por aí fora nos Balcãs. É por isso que a minha fórmula para o que está a acontecer nos Balcãs não é como as pessoas usualmente dizem que são apanhadas nos seus velhos sonhos, que não podem enfrentar a realidade ordinária pós-moderna. Não, eu diria que elas são apanhadas nos sonhos, mas não nos seus sonhos – nos sonhos europeus. O filósofo francês Gilles Deleuze disse uma coisa maravilhosa: “Se fores apanhado nos sonhos dos outros, estás feito”. Portanto, o cinema deve mostrar precisamente que este folclore excêntrico em alguns lugares pode fazer parecer que somos todos parte de um mundo global.

Euronews: Sarajevo é também uma cidade simbólica para o multiculturalismo, mas tem uma opinião muito particular acerca da tolerância multicultural, não tem?

Slavoj Zizek: Eu acho que aqui já tivemos o suficiente desta ideologia multicultural, que para mim, pelo menos, é frequentemente um racismo invertido, designadamente quando as pessoas vêm cá. Normalmente, multiculturalistas diriam: “Oh, eu quero entender como tu és diferente”. Não, o que se deve entender fundamentalmente é que eles aqui não são diferentes – apenas coisas diferentes lhes aconteceram e para o tornar tolerável para nós, que gostaríamos de ter evitado a guerra, no Ocidente fizemos as pessoas diferentes. O que precisamos hoje em dia é de códigos de conduta, não de mais entendimento. Eu acho que nos deveríamos opor totalmente a esta chantagem liberal de que temos que nos entender uns aos outros. Não, o mundo é demasiado complexo, não podemos. Detesto pessoas. Não quero entender as pessoas. Quero ter um certo código em que eu não entendo o teu estilo de vida e tu não entendes o meu, mas podemos coexistir.

Euronews: Por que razão podemos sentir aqui, em Sarajevo, desilusão, após a detenção de Radovan Karadzic?

Slavoj Zizek: A verdadeira tragédia é, como alguns inteligentes políticos bósnios realçaram, que basicamente Karadzic teve sucesso. O seu programa foi que uma grande parte da Bósnia deveria ser reservada e etnicamente limpa para os sérvios. Foi isto que efectivamente aconteceu: a República Srpska é 51 por cento do território e tem menos 10 por cento dos outros, não sérvios. Portanto, a ironia é… isto é como César morreu, César ganhou… para isto é demasiado tarde. Esta é a hipocrisia: condena-se o homem, o projecto vingou.
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Slavoj Zizek, um sujeito incômodo

Em entrevista à Folha, por telefone, ele apontou sua metralhadora teórica na direção de assuntos como levantes populares, bullying e falsa liberdade.

Folha - No livro "Em Defesa das Causas Perdidas", o sr. defende a "hipótese comunista", uma alternativa ao capitalismo, e fala em ditadura do proletariado. Essa terminologia não gera resistência?
Slavoj Zizek - Quero deixar claro que o comunismo do século 20 está morto e que não sou um ingênuo que acredita num grande retorno do Partido Comunista. O stalinismo foi a materialização do horror. Defendo o uso desses termos porque qualquer conservador moderno de direita sai por aí dizendo que precisamos de mais solidariedade.
Por outro lado, são termos que se referem à memória coletiva da humanidade e remetem a momentos em que existiram explosões populares igualitárias verdadeiras. Não se trata de repetir o modelo fracassado, mas de preservar o momento em que foi possível ter a liberdade de pensar e agir segundo a ideia de que o capitalismo não é um fato dado.

Joao Wainer/Folhapress
O filósofo esloveno Slavoj Zizek durante visita à Folha, em 2003
O filósofo esloveno Slavoj Zizek durante visita à Folha, em 2003
Um de seus argumentos para defender o comunismo é a questão da propriedade intelectual. Por que diz que o conceito de conhecimento é comunista?
O conhecimento é naturalmente comunista, o que quer dizer que já inclui a ideia de algo feito para ser compartilhado. E isso não pode ser transformado numa "commodity" de mercado. Vamos pensar em apenas dois exemplos importantes: a propriedade do patrimônio biogenético e ecológico, incluindo aí todas as recentes descobertas científicas, o genoma etc.
Estamos falando do controle privado da nossa substância genética e do ambiente em que vivemos. O conhecimento é nossa substância simbólica e pertence a todos, não pode ser de grupos privados. Outro dia, um grupo de estudantes me pediu originais de um livro meu para "pirateá-lo" entre os colegas. Atendi imediatamente.
Em "Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa", o sr. fala que a crise de 2008 foi um embuste que revelou novas formas de colonialismo. Que formas são essas?
A crise de 2008 foi uma farsa no sentido de que foi um reflexo esperado das medidas tomadas nos EUA em 2001 --redirecionar o foco das empresas de internet que estavam falindo para o mercado imobiliário. É claro que a bomba estourou, mas a novidade é que essa crise planejada afetou os países muito seletivamente.


O Brasil passou bem pela crise...
Lula entendeu algo muito importante, que a esmagadora maioria da esquerda mundial não entende: o capitalismo de hoje não é um sistema hegemônico. Está cheio de inconsistências e divisões internas. A crise de 2008 foi uma crise do capitalismo global, mas, ao mesmo tempo, nos mostrou que estamos entrando numa era multicêntrica. Antes, se as economias norte-americana e dos principais países europeus iam bem, tudo ia bem. Agora, as coisas mudaram.
Isso pode ser bom por um lado, pois podemos pensar que o imperialismo norte-americano não é mais tão poderoso. Mas também traz um novo perigo: já podemos falar da emergência do colonialismo econômico chinês. A China patrocina governos corruptos locais para poder explorar recursos minerais, por exemplo, e manter seu lugar de destaque no mercado.
Aqui, queria fazer um parêntese e uma crítica a Lula. Talvez para mostrar que o Brasil não é mais dependente dos EUA, ele apoiou Mahmoud Ahmadinejad quando as eleições foram contestadas no Irã. Para mim, foi um erro terrível.


A seu ver, Lula deveria ter apoiado o outro lado?
Sim! Mir Hossein Mousavi, o candidato que foi roubado nas eleições, não era mais um liberal pró-ocidental oportunista. Na verdade, representava a verdadeira alternativa democrática: veio da revolução liderada por Khomeini [levante islamista que derrubou a monarquia no Irã em 1979].
Mousavi estava no caminho dos levantes que começaram recentemente no Egito e na Tunísia, fenômenos nos quais tenho alguma esperança. Ninguém esperava isso: que exatamente nos países árabes tivéssemos movimentos democráticos emancipatórios desse tipo.


Por que países como a França e a Inglaterra ficaram tão reticentes quanto ao levante no Egito?
O discurso norte-americano e da Europa Ocidental foi sempre o seguinte: as intervenções nos paí¬ses árabes acontecem no sentido de evitar levantes fundamentalistas e estimular a liberdade, a luta pela democracia etc. Muito bem: é exatamente isso o que aconteceu no Egito, e eles não ficaram contentes, mudaram o discurso. Mas de fato há razões para que eles fiquem assustados.
O que está acontecendo no Egito não é simples. Não se trata apenas de um "queremos ser uma democracia liberal". As pessoas no Egito estão lutando por algo diferente, por algo novo.
O importante é o que acontece no que chamo de "o dia seguinte", ou seja, como as reivindicações são institucionalizadas em uma nova ordem.


E como lê a situação da Líbia?
O episódio Gaddafi não traz nada de novo. É a repetição da fórmula que inclui intervenção militar, envio de ajuda humanitária etc. Ou seja, é um episódio que pode ser lido dentro da lógica da guerra ao terror americana. A Líbia não vive nada realmente novo, ao contrário do Egito.


O sr. estabelece uma relação direta entre capitalismo e bullying. Por que esse último se transformou numa espécie de paranoia mundial?
O paradoxo é o seguinte: de um lado, temos a permissividade capitalista, e do outro, uma sociedade mais regulada do que nunca. Ou seja, em princípio, não há regras rígidas a serem seguidas, mas, ao mesmo tempo, tudo o que você disser ou fizer pode ser apontado como ofensa ou ameaça.
O cerne da questão trata do velho problema cristão de "amar o próximo". Cada vez mais, nosso próximo é percebido como ameaça em potencial. Isso tem ligação direta com a política do medo pós-11 de Setembro. Com a desculpa de proteger a população de possíveis novos atentados, os níveis de vigilância chegaram a patamares absurdos, liberdades foram cassadas e o clima de pânico, instaurado. A verdade é que, apesar de todo o discurso liberal, vivemos numa das sociedades mais controladas de todos os tempos.
Existe algo muito errado com essa subjetividade ultranarcisista que está surgindo desse cenário. Temos de falar de um exemplo muito importante: o ato sexual apaixonado está sendo abandonado. O último filme de "James Bond", por exemplo, "Quantum of Solace" (2008), é o primeiro da série em que não existe uma cena de sexo entre Bond e a "Bond girl". Em "O Código da Vinci" também não há sexo, embora o ato sexual exista nos romances que deram origem ao filme.
A indústria do cinema sempre teve o papel de acrescentar sexo aos roteiros para torná-los mais atraentes. Então, em que espécie de mundo estamos quando Hollywood precisa retirar o sexo dos filmes? Estamos falando de uma economia de relações baseada no medo.


O sr. tem batido muito na tecla da "farsa ecológica" alimentada pela culpa das elites. Não existe de fato uma ameaça ecológica?
Existem problemas graves, é óbvio, mas as soluções para eles não estão nas "ecobags" ou noutra idiotice desse tipo. Entre as classes média e alta, é chique dizer que você é "consciente", que recicla lixo e se preocupa com o ambiente. Isso é imbecilidade, me desculpe.
É praticamente uma superstição, algo que tira a sua culpa e faz você se sentir bem. Os ecologistas radicais são os maiores críticos desse tipo de ritual da elite, eles chamam isso de "lifestyle" ecologista e pesquisas provam que o impacto positivo desse tipo de atitude no cenário global é irrelevante.

Nos livros "Em Defesa..." e "A Visão em Paralaxe", o sr. aponta as favelas como foco potencial de ideias de organização revolucionárias. Não há também uma idealização dos favelados?
Sim, é claro. Não se trata de idealizar os pobres como vítimas boa¬zinhas. Meus amigos intelectuais do Rio queriam me levar num desses passeios turísticos pelas favelas cariocas, uma coisa horrível. O que penso é que nas favelas há a organização dos que foram ou ainda são excluídos pelo poder público. É claro, há o tráfico e as igrejas que suprem essa falta, mas isso pode mudar. As favelas não precisam de caridade, precisam de alianças.

domingo, 5 de junho de 2011

“Eles não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir” - Por que devo lutar?


A realidade apática e acrítica da juventude, dos trabalhadores, dos intelectuais e das demais “classes socioculturais” não é uma situação difícil de observar atualmente e muito menos agradável de constatar. Os contemporâneos da super-explosão midiática do início da primeira década deste século são também os “analfabetos funcionais” sobre as possibilidades sociais e políticas dessa mesma massa midiática, mais precisamente a internet. Esse potencial ficou provado na Espanha recentemente com a onda de protesto que se auto-intitulou no twitter de @espanishrevolution (ou 15-M), onde milhares de universitários protestaram (ainda protestam, já que cerca de cem mil desses jovens estão ainda em ação). Protestos assim já haviam acontecido em outros países Europeus e também nos EUA, pois a mobilização através da rede mundial obteve bons resultados em todos estes casos, reafirmando assim que um “cyber ativismo” é perfeitamente viável e competente na luta pelos interesses sociais. O que torna tal engajamento melhor ainda é que os governos não conseguem combater essas insurreições promovidas e/ou divulgadas na grande rede por se tratar de algo extremamente novo e de organização dispersa e voluntária, diferentemente do que ocorre num partido ou sindicato, por exemplo. Por mais diferente que esse movimento espanhol seja das recentes rebeliões árabes há todo um momento social no velho continente que almeja a revoluções similares:


“As praças da Espanha poderiam ser um fenômeno conjuntural, de alguns dias de duração. Mas tudo indica que não é. Apesar do movimento não apresentar a massividade das revoluções árabes e seja mais de uma vanguarda jovem, impactaram as massas e tendem a se transformar em assembléias populares ao estilo da Argentina em 2001. É a expressão mais avançada de uma nova etapa que se abriu na Europa, com centro na Espanha e na Grécia, mas que tende a repercutir em outros países. A conexão dos movimentos na Espanha com o processo mais profundo da revolução árabe gera sua permanência.”[1]
Olhando para as repercussões e os indiscutíveis sucessos das insurreições que ocorreram no velho continente percebemos que as armas para se rebelar de forma eficaz contra todo tipo de opressão está facilmente ao nosso alcance também aqui no Brasil ou em qualquer país. Entretanto não vemos interesse pelas questões políticas mais profundas nem sequer na classe dos estudantes universitários brasileiros. Por mais fácil que seja buscar a culpa desse desinteresse na má educação ou num suposto interesse comum a longo prazo das perspectivas de mudança neste país, não devemos cair nesse discurso fácil, embora real , pois este é vazio quando tratado de forma isolada e como suficiente em si mesmo. Tantas são as possibilidades desse universo de informações e velocidades quânticas quanto são escassas a determinação da população (trabalhadores, estudantes, intelectuais).
O povo brasileiro de uma forma geral está satisfeito com a liberdade de expressão própria das “grandes democracias ocidentais” (Ver José Saramago), mesmo que essa liberdade valha menos do que realmente parece ser. Pergunto: Do que adianta uma liberdade para se expressar quando não se tem expressão ou pior ainda quando não sabemos nos expressar? Renato Russo muito novo, ainda no aborto elétrico já dizia: “se a voz do povo é a voz de Deus, será que Deus é mudo?” Por isso insisto em dizer que não me sinto parte desse povo, não posso compartilhar sonhos com quem adora a própria ignorância. Albert Einstein uma vez escreveu que a liberdade de expressão é inútil para o homem quando este precisa se esforçar demasiadamente de forma que não lhe reste tempo suficiente para dedicar-se ao exercício daquilo que anseia sua felicidade, isto é, o homem não terá o que pensar ou dizer se lhe for podado o direito e o dever de ser feliz junto a sua comunidade (Ver Ciência e Religião, Albert Einstein).
É comum vermos marchas evangélicas ou de qualquer outra doutrina de massa alcançar facilmente um milhão de pessoas, pois elas se sentem representadas e envolvidas por aquilo que dedicam seu tempo, esforço e dinheiro (às vezes muito dinheiro) e nessas marchas “por Deus, com Deus e para a família” (parece um slogan nazista) estão repletas de jovens que abdicaram do prazer de pensar e agir para ter a segurança de crer e obedecer. Pois bem, por que não vemos esse mesmo comprometimento com a vida em sociedade? Sim, digo vida em sociedade porque é isso a política, o meio mais eficaz de discussão e aprimoramento da vida em sociedade. Por isso comece com o mínimo, pergunte-se: Por que NÃO devo lutar?
A juventude é o novo sujeito dinâmico da luta de classes européia. Como gostaria de dizer isso de um suposto povo brasileiro, quem sabe um dia...